{"id":199,"date":"2020-04-05T12:13:14","date_gmt":"2020-04-05T12:13:14","guid":{"rendered":"http:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/?page_id=199"},"modified":"2020-04-10T21:32:39","modified_gmt":"2020-04-10T21:32:39","slug":"migracoes-do-povo-da-beira-litoral-regiao-gandareza-para-a-regiao-de-setubal-zona-caramela","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/localidade\/migracoes-do-povo-da-beira-litoral-regiao-gandareza-para-a-regiao-de-setubal-zona-caramela\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es do povo da Beira Litoral (regi\u00e3o Gandareza) para a regi\u00e3o de Set\u00fabal (zona Caramela)"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: justify;\">Em princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX, iniciou-se um movimento migrat\u00f3rio dos povos da Beira Litoral, vindo a caminho do Alentejo \u00e0 procura de trabalho.<\/p>\n<p><\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Grande parte deste povo acabou por se fixar a trabalhar na regi\u00e3o de Set\u00fabal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Na zona de Pinhal Novo, Vale da Hera, Poceir\u00e3o, Lagame\u00e7as e Venda do Alcaide regi\u00f5es j\u00e1 habitadas, iniciaram os trabalhos de arranque de pinheiros, de surriba de terras em extens\u00f5es de l\u00e9guas, plantio de bacelos no que viria a ser a maior vinha do mundo. Com estes trabalhos, houve necessidade de recrutar muita gente, o que atraiu a corrente migrat\u00f3ria das fam\u00edlias beiroas. Este povo come\u00e7ou a aclimatar-se belamente ao novo meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">A coloniza\u00e7\u00e3o, digamos, foi h\u00e1bil e feliz, homens, mulheres e crian\u00e7as, nas suas novas moradas dispersas por aqui e ali, na campina, foram esquecendo suavemente a sua regi\u00e3o original e votaram-se inteiramente \u00e0quele trabalho tit\u00e2nico e remunerador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Os anos foram passando, as gera\u00e7\u00f5es sucederam-se, \u00e0quele enclave de indiv\u00edduos estranhos come\u00e7aram a misturar-se elementos oriundos dali, cruzando-se, libertando-se da situa\u00e7\u00e3o de simples jornaleiros ou rendeiros, tornando-se alguns em propriet\u00e1rios de terras, de forma a darem um aglomerado de caracter\u00edsticas perfeitamente definidas, exclusivas, como n\u00e3o h\u00e1 semelhante no resto do Pa\u00eds, a que se deu o nome de Caramelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Caramelo \u00e9 incans\u00e1vel trabalhador que se ergue mal luz o buraco, e parte para o trabalho com a copa (alc\u00f4fa de comer) e a torta (enxada), a cavar \u00e1 estona (sistema de arranjo dos batatais) em talh\u00f5es geometricamente dispostos, separados por valas de rega.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As mulheres s\u00e3o anafadas, de rostos corados, pele tisnada pelos s\u00f3is de todo o ano, suor sempre l\u00e9pido a saltar dos poros. Quando v\u00e3o \u00e0 vila, trajam blusa e saia de c\u00f4res berrantes, amarelo ruivo, vermelho, azul el\u00e9trico, verde salsa (conhecidas na vila por cores Caramelas), com muitas rendas e entremeios, len\u00e7os garridos e sapatos atamancados.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0Na loja de fazendas, no tribunal, no consult\u00f3rio onde quer que iam, <strong>entram vagarosos, desconfiados, franzindo o sobrolho, pontas do xaile arrebanhadas pelas m\u00e3os, que ainda seguram o sombreiro ou a saquinha do dinheiro. Tratam todos de vossemec\u00ea, sejam pessoas de peso ou n\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Eram extremamente rudes por educa\u00e7\u00e3o tradicional.<\/strong> N\u00e3o havia grande afetividades dentro das fam\u00edlias, e o que mais admira dada a sua proced\u00eancia de regi\u00f5es devotadas, \u00e9 a perda quase completa do seu esp\u00edrito religioso. N\u00e3o rezavam, n\u00e3o iam \u00e0 missa, n\u00e3o batizavam os filhos, poucos casaram pela Igreja. Perderam estes costumes por assimila\u00e7\u00e3o aos naturais, que j\u00e1 os n\u00e3o tinham. Mais a norte do Distrito, a realidade era diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0A Barra Cheia, localidade pertencente aos concelhos de Moita, Palmela e Barreiro, terras que pertenciam ao conde de Palmela, zona de matos e pinhais, viria a ser desbravada pelo mesmo povo que aqui constitui uma col\u00f3nia pura da regi\u00e3o da Beira Litoral, fundaram e povoaram a localidade, sendo provavelmente que lhe deu o nome. Come\u00e7aram a limpar as terras e a torn\u00e1-las f\u00e9rteis, fixaram-se em palheiros e posteriormente em casas de barro com cobertura de palha, abriram charcos, instalaram picotas e algumas noras para tirar \u00e1gua, iniciaram as sementeiras de batatas, cereais, planta\u00e7\u00e3o de vinha e outras culturas. No final das colheitas regressavam \u00e0 terra natal. O povo da vila chama-lhes Caramelos de ir e vir, e tratavam-nos com um certo desprezo. Os Caramelos receberam estas terras foreiras, vedaram as suas parcelas com enormes valados de areias, plantaram em volta oliveiras e figueiras, come\u00e7ando a constituir as estruturas necess\u00e1rias para se fixarem em definitivo. As casas come\u00e7am a serem constru\u00eddas por toda a parte com ad\u00f4bos de barro e cobertura em palha de centeio e mais tarde com telha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o perderam os povoadores da Barra Cheia os seus h\u00e1bitos religiosos<\/strong>, e numa extens\u00e3o de cerca de 5 kms constru\u00edram duas ALMINHAS. Numa delas, mais tarde, viria a ser edificada uma Capela onde existiam duas imagens cujos nomes a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o gosta de falar; n\u00e3o se consegue apurar concretamente, mas diz o povo que era a Santa Conicha ou Santa Conga e Santo Car\u00e1rio ou Eucar\u00e1rio, mas devido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Moita e Alhos Vedros gozarem os Caramelos pelos nomes dos seus Santos, os Caramelos acabaram por tornar sua Padroeira N\u00aa. S\u00aa. da Atala\u00ednha por sua grande devo\u00e7\u00e3o a N\u00aa. S\u00aa. da Atalaia do Montijo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Os Caramelos de ir e vir, ao fixarem-se em definitivo, acabam por se designar apenas por CARAMELOS, frequentavam todas as Romarias, N\u00aa. S\u00aa. da Atalaia, N\u00aa. S\u00aa. da Arr\u00e1bida, N\u00aa. S\u00aa. do Cabo, N\u00aa. S\u00aa. da Escudeira e muitas outras. Faziam grandes bailes nos locais de encontro e de despedida das referidas romarias, caminhavam dois dias pela Serra da Arr\u00e1bida para ir \u00e0 Romaria por caminhos agora desconhecidos, acompanhados dos burros carregados com os alforges cheios de comida e vinho da colheita, e a tradicional bandeira do C\u00edrio em pagamento de promessa, e cantava-se:<\/p>\n<p> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00d3 SENHORA DA ARR\u00c1BIDA<br \/>SEU CAMINHO PEDRAS TEM<br \/>SE N\u00c3O FOSSE SEUS MILAGRES<br \/>J\u00c1 C\u00c1 N\u00c3O VINHA NINGU\u00c9M.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Diz-se que este povo quando regressava \u00e0 sua terra na Beira depois de ter feito as colheitas, se dedicavam \u00e0 faina do mar, o que parece ter fundamento. Estando a Barra Cheia a 5 kms de Moita, sede do concelho, sempre viveu de costas para a Vila e efetuava todas as suas compras e abastecimento na vila de Set\u00fabal e Sesimbra, terras de grande atividade mar\u00edtima, trazendo as cangalhas dos burros cheias de v\u00e1rios g\u00e9neros alimentares e peixe para secar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o se vivia mal, mas havia necessidades de poupar, s\u00f3 se cal\u00e7avam em dias de festa, vinham \u00e0 vila descal\u00e7os, cal\u00e7ando-se para ir ao m\u00e9dico ou \u00e0 C\u00e2mara. Em dias de festas de N\u00aa. S\u00aa. da Boa Viagem, andava-se uma l\u00e9gua at\u00e9 \u00e0 entrada da vila com os trajes de festas vestidos, as mulheres usavam aventais para os proteger, descal\u00e7os ou com tamancos velhos, numa saquinha de retalhos vinha o cal\u00e7ado e avental novo, \u00e0 entrada da Vila, num charco todos iam lavar os p\u00e9s, cal\u00e7ar os sapatos para ir \u00e0 festa e trocar de avental, deixando escondido nas silvas e cani\u00e7os o cal\u00e7ado velho a aguardar regresso.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\"><strong>As fam\u00edlias eram unidas, haviam trocas de produtos de colheitas para que tudo houvesse em casa, as matan\u00e7as de porcos e as adiafas eram sempre uma festa grande. Os casamentos duravam tr\u00eas dias at\u00e9 se comer o resto do dia principal.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\"><strong>As desfolhadas e malhadas eram alternadas um dia em casa de cada, havia vinho, p\u00e3o de milho ou alvo, e o harm\u00f3nio n\u00e3o deixava de tocar, cantava-se, dan\u00e7ava-se o lamb\u00e3o, a cigorra e as dan\u00e7as de roda \u00e0 desgarrada em horas sem fim, os bailes eram feitos em casa de fam\u00edlias onde havia filhas para casar, come\u00e7avam ao s\u00e1bado \u00e0 noite, terminando ao nascer do sol do dia seguinte. <\/strong>O cerra-\u00e0-velha constitu\u00eda uma festa para os mais novos ainda at\u00e9 \u00e0 poucos anos. Os funerais eram grande acontecimento de dor, todos deixavam o trabalho para enterrar o parente ou amigo, de caix\u00e3o \u00e0s costas por meio de pinhais ia-se at\u00e9 Alhos Vedros ou Quinta do Anjo. Dada a grande dist\u00e2ncia, faziam grandes paragens, a fome apertava, as vinhas e pomares n\u00e3o eram poupados e os Quintajenses insatisfeitos com os preju\u00edzos rogavam<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cOS CARAMELOS HAVIAM DE MORRER TODOS NO MESMO DIA OU NUNCA MORRER NENHUM\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">Viveu-se com a fartura que a terra dava, veio a Guerra Mundial e de Espanha, havia dinheiro, n\u00e3o havia que comer e de semear, muitos emigraram para o Brasil e come\u00e7ou a perda das liga\u00e7\u00f5es dos Caramelos com os parentes na Beira, at\u00e9 fins da d\u00e9cada de 50, ainda havia quem ia visitar a fam\u00edlia a Mira e a Cantanhede, mas os mais novos nunca l\u00e1 foram, falecidos os mais velhos perderam-se todos os contactos com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"> <\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A popula\u00e7\u00e3o da Barra Cheia e seus descendentes, orgulham-se do seu passado, pelo valioso contributo que deram aquela regi\u00e3o, continuando a preservar os seus costumes e tradi\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p> <\/p>\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Manuel Fernando Miguel, 3 de Mar\u00e7o de 1985<br \/>Apresenta\u00e7\u00e3o num col\u00f3quio de Folcloristas em Cantanhede<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX, iniciou-se um movimento migrat\u00f3rio dos povos da Beira Litoral, vindo a caminho do Alentejo \u00e0 procura de trabalho. Grande parte deste povo acabou por se fixar a trabalhar na regi\u00e3o de Set\u00fabal. Na zona de Pinhal Novo, Vale da Hera, Poceir\u00e3o, Lagame\u00e7as e Venda do&#8230;<\/p>\n<p> <a class=\"continue-reading-link\" href=\"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/localidade\/migracoes-do-povo-da-beira-litoral-regiao-gandareza-para-a-regiao-de-setubal-zona-caramela\/\"><span>Continue reading<\/span><i class=\"crycon-right-dir\"><\/i><\/a> <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"parent":55,"menu_order":4,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"h5ap_radio_sources":[],"footnotes":""},"class_list":["post-199","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":518,"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/199\/revisions\/518"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/55"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/r-etnograficobarracheia.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}